
Autor: Marcos Scarcela Portela Scripilliti
Publicado: “Revista Digital Consultor Jurídico” –
27/03/2003
Tempos de guerra, ou melhor, de negócios para os Estados Unidos. Prova eloqüente disso são as altas das bolsas norte-americanas, que atualmente são utilizadas como verdadeiras bússolas para situar os demais mercados do mundo. Quem é do ramo sabe: a correria de investidores por ações nunca é à toa. O início dos combates no Iraque, apesar de covarde, é um grande negócio.Vejamos os porquês:
Em primeiro lugar está o aspecto psicológico, mais precisamente a auto-estima, de suma importância para qualquer crescimento sólido, seja de um indivíduo ou de uma nação. Os Estados Unidos não conseguiram digerir a genialidade dos ataques de 11 de setembro com o passar do tempo.
Digo genial não em desrespeito às milhares de vidas tiradas no lamentável episódio, mas sim porque um simples mortal foi capaz de mudar valores antes nunca questionáveis e que guardam direta relação com a política econômica traçada pelos Estados Unidos.
Junto com o World Trade Center desmoronou a estima do povo norte-americano, que somente foi capaz de ancorar sua frustração na crença de que seria necessário um espetáculo quase tão chocante como os cruéis ataques de Osama Bin Laden para virar esta página da história. Para tanto, nada melhor do que uma guerra com hora marcada.
A existência de um espírito de vingança foi confirmada pela angústia transmitida ao vivo pela mídia, com direito a animações e efeitos especiais, decorrente do atraso de uma ofensiva militar como nunca antes vista à pobre Bagdá.
Mas não é só. Manobras políticas, também vitais para o fortalecimento da economia norte-americana, justificaram o início da guerra. À toda evidência, os Estados Unidos ficaram muito incomodados com o fortalecimento da União Européia, que neste ano materializou sua força como bloco econômico ao colocar em circulação uma moeda comum, o euro. Este sim é um alvo em potencial. Como atacá-lo? A saída foi relativamente simples: dar início a uma guerra sem o consentimento das Nações Unidas.
Essa postura, além de colocar em cheque a credibilidade das leis internacionais -- viga mestre de qualquer possibilidade de união entre Estados --, também trouxe à tona desavenças entre países membros da União Européia como forma de questionar a credibilidade do bloco econômico. E para assegurar o tumulto, os EUA tornaram imensamente débeis os motivos do pedido de autorização para o início da guerra, ao lado do Reino Unido, outro grande interessado no fracasso do euro.
Como se não bastassem os benefícios acima expostos, salta aos olhos o interesse dos norte-americanos nas reservas naturais que se encontram no local do conflito. Sabe-se que no território iraquiano está concentrada a segunda maior reserva de petróleo do mundo, sangue necessário para pulsar o coração de seu império, o capitalismo. Mas há também a preciosa água dos rios Tigre e Eufrates, tão importante para quem pretende dominar o Oriente Médio, uma região tomada pelo deserto.
Mas tudo isso vem de lambuja, acreditem se quiser. O controle desse território é de extrema importância para os Estados Unidos pensarem em ameaçar seu inimigo maior: a China. A emergência de uma outra superpotência, que tem origem num regime socialista e cujo capital intelectual é o mais promissor do mundo apavora os norte-americanos e coloca em risco sua soberania.
E com a posse do Iraque, os Estados Unidos poderão ainda diminuir sua dependência do Egito e dos Emirados Árabes que, pelo perfil político, não são aliados seguros numa época de combate ao terrorismo. Hoje há uma tolerância entre eles que se faz necessária, mas assim que os norte-americanos puderem contar com o petróleo iraquiano, a vizinhança que se cuide.
Apesar de toda a desgraça do mundo e da precariedade em que vivem milhares de pessoas, os norte-americanos adotaram medidas protecionistas para o seu sólido mercado. Ora, quem, em sã consciência, nesta altura dos acontecimentos, acredita que eles estão investindo uma quantia bilionária (cerca de US$ 75 bilhões) para mobilizar tamanha infraestrutura bélica somente para livrar o Iraque da ditadura? Tempos de guerra como este revelam que os principais lastros do dólar norte-americano continuam sendo mísseis e balas.
Para piorar, além de um negócio, esta guerra é uma grande covardia. Os Estados Unidos aguardaram os inspetores da ONU destruírem o arsenal do Iraque e obterem informações militares privilegiadas sobre o sistema de defesa daquele país, para então atacarem. Civis iraquianos, portando bandeiras brancas, rendem-se de joelhos perante o mundo a soldados deste tirano império, assustadoramente preparados para o confronto.
Aliás, onde estão as ameaçadoras armas atômicas do Iraque? Se realmente a preocupação dos norte-americanos fosse com as mazelas advindas de um severo regime ditatorial, por que não libertar Cuba? E o que dizer sobre o conveniente apoio dos EUA ao ditador do Paquistão, Pervez Musharraf, em razão da guerra do Afeganistão?
Isso tudo sem contar a pretensão do secretário de defesa dos Estados Unidos, Donald Rumsfeld, em uma guerra iniciada com violação às orientações da ONU, querer se valer da Convenção de Genebra para condenar e punir a transmissão pela mídia iraquiana de imagens de soldados norte-americanos e britânicos capturados no Iraque.
Os Estados Unidos estão subestimando a inteligência do mundo.